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Polícia de Israel impede Patriarcado Latino de Jerusalém de celebrar missa de Domingo de Ramos: 'Primeira vez em séculos'
Instituições católicas veem a decisão arbitrária como 'claramente irracional e gravemente desproporcional'
29/03/2026 12h36
Por: Redação
O cardeal Pierbattista Pizzaballa (ao centro), patriarca latino de Jerusalém, na Santo Sepulcro, em Jerusalém, durante missa em abril do ano passado — Foto: John Wessels / AFP / 23-4-2025

A polícia de Israel impediu que o Patriarcado Latino de Jerusalém e a Custódia da Terra Santa celebrem a missa do Domingo de Ramos, uma data importante no calendário católico, que marca o início da Semana Santa. Um comunicado conjunto entre as instituições, divulgada neste domingo (29), denuncia que o patriarca Pierbatista Pizzaballa e o custódio padre Francesco Ielpo foram impedidos de entrar na Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, para realizar a celebração.

“A primeira vez em séculos: medida grave e irracional, um afastamento dos princípios da liberdade de culto e do respeito ao status quo”, diz trecho do comunicado, divulgado pelo Vatican News nesta manhã.

À tarde está prevista uma oração pela paz no Monte das Oliveiras.

As duas instituições denunciam que a decisão arbitrária impede a entrada daqueles que “ocupam as mais altas responsabilidades eclesiásticas pela Igreja Católica e pelos Lugares Santos”, o que constitui “uma medida claramente irracional e gravemente desproporcional”. A decisão é considerada “precipitada e fundamentalmente errada, viciada por considerações impróprias”, que “representa um grave afastamento dos princípios fundamentais de razoabilidade, liberdade de culto e respeito pelo Status Quo”.

Devido à guerra iniciada pelos Estados Unidos e por Israel, ao atacarem o Irã em 28 de fevereiro, que tem se espalhado pelo Oriente Médio, o estado judeu tem proibido aglomerações em espaços públicos, com eventos limitados a cerca de 50 pessoas. Por isso, o Patriarcado Latino já havia anunciado o cancelamento da tradicional procissão do Domingo de Ramos. O ato tem início no Monte das Oliveiras e vai em direção a Jerusalém, o que atrai milhares de fiéis todos os anos.

“Os encontros públicos foram cancelados, a participação foi proibida e foram tomadas medidas para transmitir as celebrações a centenas de milhões de fiéis em todo o mundo, que, nestes dias de Páscoa, voltam o olhar para Jerusalém e para a Basílica do Santo Sepulcro”, diz um trecho do comunicado.

A AFP entrou em contato com a polícia de Israel, mas não obteve resposta até o momento sobre o impedimento da celebração. O cardeal Pizzaballa é um forte crítico da atuação de Israel em Gaza —onde mais de 70 mil palestinos foram mortos e mais de 80% do território destruídos — que ele classificou de "injustificável" após uma visita ao enclave palestino em julho do ano passado, na sequência de um bombardeio israelense à única igreja católica local que deixou três mortos e 15 feridos.

Segundo os Evangelhos, o Domingo de Ramos, que marca o início da Semana Santa, comemora a entrada triunfal de Cristo em Jerusalém, onde foi recebido com júbilo por uma multidão poucos dias antes de sua crucificação e ressurreição no Domingo de Páscoa.

Pizzaballa e Ielpo explicam, no comunicado, que seguiam para a Basílica do Santo Sepulcro "de forma privada e sem qualquer característica de procissão ou ato cerimonial”, quando houve o impedimento por parte da polícia de Israel. É “a primeira vez em séculos” que aos líderes da Igreja é “impedido celebrar a Missa do Domingo de Ramos na Igreja do Santo Sepulcro”, afirmaram.

Pela importância da data para os fiéis da Igreja, o impedimento é tido como “um grave precedente” que ignora “a sensibilidade de bilhões de pessoas em todo o mundo que, durante esta semana, têm os olhos voltados para Jerusalém”.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que não houve "nenhuma má intenção" na ação policial e que a única motivação foi "a preocupação com a sua segurança e a de sua comitiva".

O presidente da França, Emmanuel Macron, condenou a ação da polícia de Israel, afirmando que o culto "de todas as religiões" deve ser garantido em Jerusalém.

"Condeno esta decisão da polícia israelense", que impediu o Cardeal Pierbattista Pizzaballa — a principal figura católica de Israel e dos territórios palestinos —, declarou Macron no canal X.

A ação se identifica com "uma série preocupante de violações do estatuto de lugares sagrados em Jerusalém", acrescentou.

Por sua vez, o chanceler da Itália, Antonio Tajani, classificou como "inaceitável" a recusa de entrada do patriarca Latino de Jerusalém na Igreja do Santo Sepulcro.

"É inaceitável que tenham sido impedidos de entrar na Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém", escreveu Tajani no X.

"Pela primeira vez, a polícia israelense negou aos líderes da Igreja Católica a oportunidade de celebrar a missa do Domingo de Ramos em um dos locais mais sagrados para milhões de fiéis em todo o mundo", acrescentou.

Em relação a essa medida, ele disse que o embaixador israelense foi solicitado a transmitir o protesto de Roma a Tel Aviv.

"Reafirmei o compromisso da Itália com a salvaguarda da liberdade religiosa em todos os momentos e em todas as circunstâncias".

A cidade de Jerusalém é sagrada para as três principais religiões abraâmicas — cristianismo, islamismo e judaísmo — e teve a sua parte oriental de maioria árabe, onde fica a Cidade Velha, que abriga a Igreja do Santo Sepulcro, ocupada e anexada ilegalmente por Israel na Guerra dos Sesi Dias em 1967. Estado judeu ocupa irregularmente a cidade, afirmando que é sua capital. Os palestinos reivindicam Jerusalém Oriental como capital de um futuro Estado independente, algo cada vez mais distante de ocorrer.


Por O Globo