Patos GESTO QUE TRANSFORMA
Entre a dor e a esperança: jovem paraibana se torna doadora de múltiplos órgãos e tem atendido o desejo de salvar vida
Após acidente fatal, família de jovem desterrense honra desejo da estudante e autoriza captação de órgãos que beneficiarão pacientes em três estados do Nordeste.
07/04/2026 20h04
Por: Redação
A captação dos órgãos aconteceu na manhã desta terça-feira (7), no Hospital de Patos

A história de B.R.A.S., de 28 anos, natural de Desterro, é daquelas que tocam profundamente pela dor de uma perda precoce, mas, muito mais, pela grandeza do gesto que eternizará sua existência. Mãe de três crianças menores, filha dedicada e mulher de muitos sonhos, ela teve sua vida abruptamente interrompida após um acidente de motocicleta, ocorrido no último dia 2 de abril, na cidade de Cacimbas (PB). Socorrida em estado gravíssimo e reanimada várias vezes, a jovem chegou ao Hospital Deputado Jandhuy Carneiro, em Patos, apenas com fraca pulsação.

Pouco tempo após dar entrada na unidade, seu coração voltou a bater, mas já era tarde. Não havia reversão do quadro. O diagnóstico de morte cerebral foi confirmado pela equipe médica. A notícia devastadora deu início a um dos momentos mais difíceis para a família — mas também abriu espaço para a concretização de um desejo que ela cultivava em vida: o de salvar outras pessoas.

Criada até os 16 anos na zona rural, no Sítio Panasco, em Desterro, B.R.A.S. conheceu desde cedo a dureza da vida no campo, trabalhando como agricultora. Mesmo assim, sempre sonhou para além da porteira. Com coragem e determinação, foi morar na cidade e depois decidiu que a área de saúde era o que queria, pois salvar vidas lhe inspirava. Com muito esforço, conciliando responsabilidades familiares e dificuldades financeiras, ela começou a fazer o curso de Técnica de Enfermagem, no Vera Cruz, cuja formatura era prevista para o próximo mês de junho. Mais do que uma profissão, ela via na enfermagem uma missão. Durante o curso, aprofundou-se no tema da doação de órgãos — e ali encontrou um propósito ainda maior. À mãe, confidenciou mais de uma vez que desejava ser doadora, caso algo lhe acontecesse. Queria, de alguma forma, continuar salvando vidas. E foi exatamente isso que aconteceu.

Mesmo diante da dor da perda da filha única, da pessoa que a ajudava no dia a dia, a mãe encontrou forças e serenidade para respeitar e honrar esse desejo. Foi dela a autorização que permitiu que esse gesto de solidariedade se concretizasse. “Ela sempre teve esse coração bom, sempre pensou nos outros. Quando ela falou sobre isso comigo, eu jamais imaginei que um dia teria que tomar essa decisão. Mas eu sabia que era o que ela queria. É muito difícil, mas conforta saber que ela continuará ajudando outras pessoas através deste gesto”, disse Maria do Socorro, mais conhecida em Desterro como Dona Coca.

A jovem doadora deixa uma história de vida breve, mas marcada por responsabilidade, cuidado e afeto. Era ela quem cuidava da mãe cadeirante e dos três filhos, assumindo com maturidade e amor, um papel fundamental dentro da família. Para o primo, Gean Carlos Xavier, gerente comercial que acompanhou de perto todo o processo desde o acidente até a autorização da doação, atuando como elo entre a família e o hospital, a decisão reflete exatamente quem ela sempre foi. “Ela era alegria pura, uma pessoa extrovertida, cheia de vida. Nunca deixou que as dificuldades tirassem o sorriso do rosto. Sempre acreditou em dias melhores e tinha um desejo enorme de ajudar as pessoas. Esse gesto final da família reflete a maior prova do coração que ela tinha”, destacou.

Com a autorização da família, foram captados os rins esquerdo e direito, o fígado e as córneas da jovem. Os órgãos foram destinados a pacientes que aguardavam por transplantes nos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, levando esperança a quem vivia à espera de uma nova chance.

Esse caso reforça a importância da doação de órgãos — um ato de solidariedade capaz de transformar luto em vida, dor em recomeço. No Brasil, milhares de pessoas ainda aguardam por um transplante, e a decisão das famílias é essencial para que esse processo aconteça porque mesmo externalizando em vida que gostaria de ser doadora, de nada adiantaria a B.R.A.S. se a família não autorizasse a captação.
Nossa jovem doadora partiu cedo demais. Mas, deixou um legado imenso. Um legado de amor, coragem e generosidade, porque, mesmo na despedida, escolheu viver em outras vidas. Ela agora se multiplica em novos recomeços, para alegria dos pacientes que graças a gestos como esse poderão continuar existindo e vivendo bem melhor.


Por Redação com Secom-PB