
A primeira-dama Michelle Bolsonaro 09/02/2021 Foto: Isac Nobrega / Divulgação
BRASÍLIA — A Procuradoria da República no Distrito Federal vai investigar a atuação da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, junto à Caixa Econômica Federal (CEF) para facilitar a liberação de empréstimos a empresas de amigos dela no ano passado, em meio às turbulências econômicas provocadas pela pandemia. Uma auditoria interna do próprio banco encontrou documentos e e-mails indicando que a primeira-dama pediu diretamente ao presidente da Caixa, Pedro Guimarães, a prioridade no atendimento para determinados empresários de Brasília, todos com afinidade com a família presidencial. A atuação foi revelada nesta sexta-feira pela revista “Crusoé”.
Ao menos dois documentos deixam explícita a indicação: “Cliente veio através de lista de empresas indicadas pela primeira-dama Michelle Bolsonaro ao presidente Pedro Guimarães”, dizia um deles. “Direcionamos para análise e tratativas necessárias solicitações de microempresários de Brasília enviadas pelo gabinete da primeira-dama Michelle Bolsonaro”, registrou outro.
A investigação será realizada dentro de um inquérito já em curso no Ministério Público Federal (MPF) que apura irregularidades na Caixa, como a suposta pressão política sobre a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) para que não aderisse a um manifesto com tom crítico ao governo.
A lista de agraciados com recursos do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe) inclui uma doceira, um florista, a dona de um salão de beleza, um promoter e uma empresária do ramo da moda — esta, por exemplo, remunera Michelle para que ela divulgue roupas no Instagram.
“A pedido da sra. Michelle Bolsonaro e conforme conversa telefônica entre ela e o presidente Pedro, encaminhamos os documentos dos microempresários de Brasília que têm buscado crédito a juros baixos”, diz um e-mail enviado ao banco por uma assessora especial de Michelle, datado de 20 de maio de 2020.
A maioria das operações de empréstimo, segundo a revista, foi viabilizada em uma agência de Taguatinga, no entorno de Brasília, após o presidente da Caixa encaminhar as demandas da primeira-dama. Pedro Guimarães é um dos integrantes da equipe econômica mais próximos ao presidente Jair Bolsonaro.
De acordo com a revista, a auditoria não encontrou indícios de que as firmas atendidas não se enquadravam nos requisitos do programa ou receberam valores acima dos previstos, mas os fluxos habituais em pedidos do tipo não foram seguidos, acelerando o rito.
Uma das beneficiadas foi a doceira Maria Amélia Campos, dona de uma rede de confeitarias. Em fevereiro, um vídeo gravado por ela pedindo o fim das restrições para o funcionamento do comércio em Brasília chegou a ser divulgado por Bolsonaro nas redes sociais. A empresária, que com frequência prepara as comidas servidas em recepções promovidas por Michelle, teve um empréstimo de R$ 518 mil aprovado pela Caixa. À “Crusóe”, ela afirmou ter “muito carinho” pela família Bolsonaro, mas negou ter recebido a verba.
Outro beneficiado foi Waldemar Caetano Filho, sócio do salão Luiza Coiffeur, amigo de Michelle e de Maria Amélia. “O contato com a primeira-dama foi fundamental. É o famoso QI (quem indica) que fala, não é? Foi uma parceria com a primeira-dama, ela que deu a força final. Foi a Maria Amélia, amiga da gente, que conseguiu com a primeira-dama. Precisei ir uma vez só na Caixa. Foi fácil conseguir”, disse à revista.
O florista Rodrigo Resende, que também aparece nos documentos da Caixa como um dos que contaram com a ajuda de Michelle, reconheceu que ela é sua cliente, mas disse que a relação não teve a ver com a concessão do empréstimo.
A Derela Modas, que conta com os serviços de Michelle como influencer, também se beneficiou. Em contato com a Crusoé, a gerente da loja reconheceu a relação comercial com a primeira-dama, mas não se pronunciou sobre a concessão do financiamento.
Segundo a revista, outros beneficiados a partir da intervenção de Michelle foram Márcia Barros, dona de uma rede de óticas — para a revista, ela afirmou que conseguiu a verba de R$ 618 mil a porque a empresa atendia aos requisitos — e o promoter Robson Lemos.
“Processo de governança”
Procurado pela revista, o gabinete da primeira-dama não se manifestou. A Caixa, por sua vez, informou que a concessão de crédito para empresas no âmbito do Pronampe exige obrigatório enquadramento prévio pela Receita Federal e que submete as empresas a um rigoroso processo de governança, compliance e análise de riscos. Segundo o banco, o rito de análise ocorre mediante processo “automatizado, independente e sem interação humana”. A Caixa não citou diretamente o caso de Michelle Bolsonaro, tampouco esclareceu a liberação de crédito para as empresas indicadas pela primeira-dama.
O Globo