
O diretório nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) divulgou resolução nesta sexta-feira associando o escândalo do Master ao bolsonarismo, mas ignorou elo do banco com o senador Jaques Wagner (PT-BA), que foi alvo de operação da Polícia Federal e deixou a liderança do governo no Senado.
Em documento divulgado no começo da tarde, o partido diz que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de outubro, “não apresentou explicações convincentes sobre o destino dos milhões de reais solicitados a Daniel Vorcaro nem sobre as operações financeiras que cercam essa relação”.
Em maio, o site Intercept Brasil divulgou áudio em que Flávio aparece pedindo dinheiro a Vorcaro para custear um filme biográfico sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. As sucessivas versões apresentadas por Flávio e seus aliados sobre a produção ampliaram a crise em torno do financiamento do longa-metragem e alimentaram ataques de petistas, que passaram a explorar o caso para desgastar o senador eleitoralmente.
Na resolução divulgada nesta sexta, o partido diz que o escândalo do Master “simboliza, de forma emblemática, o projeto de país representado pela extrema direita brasileira”.
"As sucessivas mentiras e mudanças de versão apenas ampliam as dúvidas da sociedade. Mais do que um episódio isolado, esse caso evidencia a promiscuidade entre interesses privados, poder político e setores do sistema financeiro que marcou o período bolsonarista”, diz trecho do texto.
Na nota, o PT afirma que o governo Lula, em contrapartida, fortalece as instituições de controle e assegura autonomia da Polícia Federal.
“Enquanto o governo Lula fortalece as instituições de controle, assegura autonomia à Polícia Federal e reafirma o compromisso com a transparência e o interesse público, seus adversários permanecem associados a um modelo em que negócios obscuros, privilégios e a captura do Estado por interesses particulares caminham lado a lado. Não se trata apenas da conduta de um indivíduo, mas da expressão de um projeto político que subordina o interesse nacional aos interesses de poucos.”
O partido, no entanto, omite o caso de Wagner na nota. Aliado de mais de 40 anos de Lula, o senador deixou cargo de confiança que exercia no Senado após aumentar a pressão no entorno do presidente para estancar o impacto da operação que mirou o parlamentar na campanha à reeleição de Lula. A PF apontou que Wagner foi o "beneficiário central" de "vantagens econômicas" pagas por integrantes do Banco Master.
Entre esses benefícios estão pagamentos de um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador, o uso de aeronaves ligadas ao Master e o ingresso para o camarote de um show internacional em Los Angeles que teria custado R$ 63,3 mil.
Defesa da soberania
A legenda de Lula também cita nominalmente Flávio e Eduardo Bolsonaro, criticando atuação deles junto a autoridades americanas. O partido diz que é “gravíssimo” que os dois atuem fora do país para “estimular medidas econômicas contra o próprio Brasil, negociando o prejuízo do povo brasileiro como instrumento de cálculo eleitoral”.
“Ao pedir que as tarifas contra produtos nacionais fossem aplicadas somente depois das eleições, revelam o caráter entreguista de um projeto político que não hesita em sacrificar empregos, empresas brasileiras, a produção nacional e a soberania do país em benefício de seus próprios interesses”, diz a nota.
O PT diz ainda que essa é uma postura de “vendilhões da pátria” e que busca “transformar o Brasil em quinta norte americano”.
A nota também reforça a defesa da soberania brasileira, mote que foi adotado por aliados de Lula e tem sido apontada como possível bandeira da gestão do petista, enaltece o Pix e diz que a defesa da soberania também “pressupõe o fortalecimento permanente das instituições públicas responsáveis pela segurança da população e pelo combate ao crime organizado”.
O partido também reage na nota à decisão do governo Donald Trump em classificar CV e PCC como organizações terroristas, além da sanção aplicada pelos americanos a brasileiros que supostamente tem elo com essas organizações, ainda que sem citar isso nominalmente.
“Reafirmamos que nenhuma política de segurança pode servir de justificativa para qualquer forma de tutela estrangeira sobre o Brasil. O combate ao crime organizado deve ser conduzido pelas instituições brasileiras, dentro do Estado Democrático de Direito, preservando nossa soberania e respeitando a Constituição Federal.”
Eleições
Na resolução, o PT defende a reeleição de Lula, destaca políticas públicas e programas implementados pela gestão petista, e destaca a necessidade de aprovar o fim da escala 6x1. O partido também diz que é preciso construir uma “nova correlação de forças na sociedade e nas instituições” ao falar da importância de eleger governadores e parlamentares aliados.
“A captura de parcela significativa do Orçamento Público por mecanismos que reduziram a capacidade de planejamento e investimento do Estado, somada à influência desproporcional de interesses econômicos e corporativos sobre parte do Congresso Nacional, impõe limites concretos à implementação de um projeto nacional transformador.”
O partido também diz que é preciso avançar numa reforma político-eleitoral que fortaleça as legendas e “reduza a influência do poder econômico sobre a política”.
“Defendemos a construção de um sistema mais democrático, representativo e programático, com a adoção do voto em lista partidária preordenada, assegurada a paridade de gênero e a ampla participação democrática na definição das listas, o fortalecimento da fidelidade partidária e a redução da fragmentação partidária, criando melhores condições para que a vontade popular se traduza em governos com capacidade de implementar o programa escolhido nas urnas.”
Por Agência O Globo