
A ex-ministra Simone Tebet (MDB) avalia que a eleição de São Paulo, “mais do que nunca”, decidirá a disputa presidencial. Em entrevista ao podcast "Direto de Brasília", a ex-candidata à Presidência da República, que concorrerá ao Senado pelo território paulista, relatou bastidores da formação da chapa majoritária, prevê que o tema da defesa da democracia retornará ao debate eleitoral quatro anos depois e avalia que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tende a romper com o ex-presidente Jair Bolsonaro na disputa pelo segundo turno presidencial contra Lula (PT). “Tarcísio não tem interesse nenhum em apoiar a família Bolsonaro”, disparou.
Qual será o papel de São Paulo na eleição presidencial?
Muitas pessoas ligam o fato de um possível encerramento da disputa no Governo de São Paulo no primeiro turno estar atrapalhando o processo eleitoral de um possível segundo turno para a Presidência da República. Diferente de outros momentos, São Paulo tem um quarto do eleitorado nacional, mas nunca o estado foi tão decisivo. Quem vai decidir a eleição, pelas pesquisas de hoje, é São Paulo, por todos os recortes que se fazem. Eu, particularmente, não acredito que a disputa estadual termine no primeiro turno e, mesmo que isso aconteça, não avalio que atrapalhará o nosso projeto nacional no segundo turno. Porque eu não acredito na participação do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) no segundo turno da eleição.
Por que não?
Ele não tem interesse pessoal nenhum de apoiar a família Bolsonaro no segundo turno, porque ele é um presidenciável. Não tenho dúvida nenhuma de que, na cabeça dele, ele se coloca como presidenciável em 2030. Então ele não tem interesse nenhum na eleição dessa família agora. Consequentemente, eu acho que qualquer resultado em nível estadual não interfere em nível nacional.
Nas últimas semanas, muitos pré-candidatos em São Paulo têm desistido de suas candidaturas, parte deles para apoiar a reeleição do governador Tarcísio de Freitas. O quanto isso prejudica o seu candidato, o ex-ministro Fernando Haddad (PT)?
Esse afunilamento é natural. A gente sabe que, chegando próximo às convenções, algumas pessoas acham que não têm chance e preferem sair candidatos a deputado federal ou a outros mandatos. Para não ficar no sereno por quatro anos, que às vezes é muito tempo. Faz parte do jogo, estamos preparados. A gente não tem que se preocupar com o adversário. A eleição estadual fica um pouco mais difícil, é claro. O Haddad, como pré-candidato, vai para uma disputa contra alguém que está sentado na cadeira, mas com todas as chances. Nós não temos tempo aqui, mas nós temos números pra mostrar entre a propaganda e a realidade de São Paulo. O que se vende em relação à segurança pública e qual é a percepção da população. Aqui não está falando alguém que seja contra privatizações, não é isso. Mas o que foi a privatização da Sabesp e as denúncias, que não são poucas, em relação a uma empresa que era superavitária, que tinha quase 90% de aprovação da população. Vamos estar dialogando, conversando e pedindo voto no momento oportuno para a população.
A senhora tem enfrentado uma contracampanha por não ser de São Paulo, apesar de o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) ser carioca. O quanto esse discurso atrapalha?
Bom, São Paulo já votou num carioca, não é (Tarcísio nasceu no Rio de Janeiro)? São Paulo é, sim, dos paulistas e a gente tem o maior respeito por isso, mas São Paulo foi e é construída com suor, com sangue, com lágrima e com as alegrias das famílias brasileiras que vieram aqui no início do século passado, das famílias de imigrantes que vieram no final do século retrasado, em busca de melhores condições, e fizeram de São Paulo uma grande potência. O estado não seria o que é hoje sem as mãos, o trabalho, a diversidade e a entrega maravilhosa do povo nordestino, dos imigrantes. E, só lembrando que eu não sou uma forasteira, não só pelos meus avós que chegaram aqui, mas me casei, meu marido é do interior de São Paulo, minhas filhas moram aqui, tenho propriedades aqui, estudei em São Paulo e já fui votada aqui como candidata à Presidência da República. Mas isso é a beleza da democracia. O poder é de todos nós soberanamente através do voto coletivo do povo, e a gente vai respeitar e aplaudir os futuros governantes depois do resultado das urnas.
Houve alguma dificuldade interna no partido quando a senhora transferiu o domicílio eleitoral?
Nenhuma. Aliás, se você me permite, lembro uma das fases mais felizes na minha filiação ao PSB, do nosso vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que é muito brincalhão e sabe contar piada como poucos. Ele foi governador de São Paulo quatro vezes, tem legitimidade para isso. Ele disse: “Simone, venha tranquila, porque São Paulo é a única terra no mundo em que japonês fala português com sotaque italiano”. Essa é a maravilha do Brasil, essa é a maravilha de São Paulo, de abraçar todo mundo, essa mistura de sangue, de raça e de línguas que contagia e que fez esse estado dar tão certo.
Contagiar o coração dos nordestinos em São Paulo não ajuda a ganhar uma eleição?
Eu não tenho dúvida (risos). Aliás, a gente conhece as pessoas nesses momentos. Quando vim disputar a pré-candidatura ao Senado, a convite do presidente Lula e do vice-presidente Geraldo Alckmin, a primeira coisa que um dos adversários me colocou foi que São Paulo é dos paulistas, não é de mais ninguém. E que eu seria uma forasteira, como tantos outros. Minha resposta foi exatamente esta: São Paulo não seria nada se não fosse essa mistura maravilhosa de povos, a começar pelos imigrantes estrangeiros, dos quais os meus avós tiveram participação. Sou neta de libaneses que vieram para São Paulo antes de irem para o Mato Grosso do Sul. Foram essas pessoas que vieram de todos os rincões, e muito fortemente do povo nordestino, que fizeram e fazem a história dessa grande terra que é São Paulo, sem dúvida o estado mais forte e mais rico da federação.
Quem lhe apadrinhou foi o presidente Lula ou o vice-presidente Alckmin?
É engraçado, o presidente Lula tem essas coisas. A gente aprende a conhecer os líderes. Ele é muito cerimonioso com as pessoas que não são do partido dele. Eu faço parte de uma frente ampla, ele sabe que sou uma pessoa de centro. Embora a relação seja muito próxima, a gente despachava constantemente, não foi o presidente Lula (quem fez o convite); foram intermediários. Começou com o presidente do PT e ele foi cercando. E aí veio o convite oficial, a pedido, obviamente, de um grupo político, e quem me fez o convite oficialmente foi o vice-presidente Geraldo Alckmin.
Mas São Paulo tem fama de ter um eleitorado de maioria conservadora, portanto mais à direita. A senhora lidera as pesquisas para o Senado, junto com a ex-ministra Marina Silva (PSB). Seria uma mudança de perfil?
Eu fico muito otimista. Embora seja um estado conservador, eu sei dialogar porque sou do interior do Brasil, eu conheço a mulher conservadora, eu vivo com essa mulher, eu compreendo, respeito. Não só eu como Marina temos muita chance, porque não é por eu ser mais conservadora e ela mais progressista na pauta ideológica. Não é disso que se trata. Sou uma pessoa de centro. Mas é pela pauta de gênero mesmo. Somos duas mulheres se apresentando para ajudar o Brasil. E, se me permitir, o time que foi escalado é digno de uma seleção brasileira. Estamos falando do lado de cá, com Haddad, o vice Márcio França (PSB), Marina, eu e Geraldo Alckmin, que é de São Paulo. Somos cinco. Quatro já foram candidatos à Presidência da República, três foram governadores, três foram prefeitos. E todos foram ministros de Estado. Olha que time, com experiência, capacidade, com uma lista de serviços prestados. Acho que isso vai impactar mais.
Essa chapa demorou a ser confirmada ou costurada. Qual foi o nó?
Na realidade, não é que havia um nó. É que nós não tínhamos sentado coletivamente para decidir. Eu não tinha conversado com o Márcio, o Márcio não tinha conversado com a Marina e a Marina não tinha conversado comigo. Estávamos aguardando essa reunião, que ocorreu na Alvorada. De última hora, o presidente falou para virmos, aproveitamos para ver o jogo do Brasil (vitória contra a Escócia). Chamado do presidente é convocação, né? E o presidente falou que queria resolver logo a questão de São Paulo. Sem mentira, a reunião não durou meia hora. Porque o presidente perguntou se o projeto era coletivo. Todos falamos que é. Ele falou que o Haddad tinha autonomia de escolher. Haddad já tinha conversado com cada um, expôs que todos são importantes para o projeto. E nós abrimos mão de qualquer intenção pessoal, porque o que importa é o coletivo. Sem a Presidência da República, nós não temos o país que queremos, e precisamos de São Paulo para reeleger o presidente Lula. Todos somos consequência desse processo.
E vocês consideraram abrir mão das candidaturas?
Sim. Por mais que eu tivesse vindo para São Paulo com o compromisso de ser pré-candidata ao Senado, eu abri mão disso. Marina, a mesma coisa; Márcio, a mesma coisa. Então Haddad decidiu e anunciou. Então foi uma reunião muito rápida, tranquila e estamos muito coesos enquanto time, trabalhando coletivamente. De novo, fazendo uma analogia com a Seleção Brasileira, cada hora um faz gol.
A questão do Banco Master tende a ser um tema que permanecerá ativo durante as eleições. Recentemente, o senador Jaques Wagner (PT-BA) entregou a liderança do governo por uma associação com as investigações. Aquilo contaminou o governo?
Primeiro, foi o próprio líder que decidiu entregar o cargo, depois de conversar com o presidente. E, a meu ver, o fez tarde. Ele tinha que ter saído imediatamente, para dizer que não é verdade. Se afastaria da liderança justamente para provar a inocência, como qualquer pessoa tem direito à ampla defesa, ao contraditório, seja de que lado for. Estamos falando de denúncias sérias e que precisam ser esclarecidas. Lamentavelmente, esse é o maior escândalo envolvendo o sistema financeiro e de corrupção da história do Brasil. Mas não vejo essa contaminação, porque isso tudo foi mais um monstrengo da corrupção criado no governo passado. Estamos falando de algo arquitetado, denúncias demonstram que o ex-chefe da Casa Civil do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), junto com o dono do Banco Master, arquitetou um esquema. E, para se blindar, contaminou todo mundo. Pensando que um não pode vigiar o outro, não pode controlar nem denunciar porque também está envolvido. Lamentavelmente, de novo, não tem ideologia ou partido, pegou muita gente e pegou de forma estratégica, buscando lideranças para poder se cercar dos Poderes. E é tão grave porque envolveu os Poderes.
Em 2022, o discurso da campanha foi sobre manter a democracia. E, para 2026, o que pesará na cabeça do eleitorado, na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL)?
A gente traduz tudo isso em soberania, na defesa do Brasil, da nossa identidade, da nossa autonomia. Quem manda no nosso quintal somos nós, o nosso problema nós resolvemos, porque sabemos que, se vier gente de fora, vem para fazer como fizeram no Brasil Colônia, levando as riquezas do nosso país para lá, sem gerar emprego e gerando um rastro de miséria e violência. Obviamente que nós temos um presidente hoje que defende a autonomia, a soberania, a riqueza do Brasil. O outro lado não, eles querem vender o Brasil. Outro ponto é a defesa dos direitos sociais, ou seja, impedir os retrocessos civilizatórios, porque eles têm uma pauta que não é a do povo brasileiro nem da população religiosa do Brasil. A pauta deles é colocar a arma na mão das pessoas, a pauta de terra arrasada na floresta amazônica, dane-se o meio ambiente. E olha que quem está falando é alguém do agronegócio do bem. Então volta de novo a pauta da democracia. Então, lamentavelmente, esses temas voltam a ser um assunto relevante nesse debate eleitoral.
Mais do mesmo então?
Lamentavelmente. E nós estamos prontos para debater economia, para mostrar os números, aquilo em que avançamos. Foram quatro anos de reconstrução, de construir uma ponte para o futuro que queremos. O lado de lá não tem discurso, não tem projeto. A gente só vê o que foram os quatro anos de terra arrasada deles. E querem entrar numa discussão que não interessa para ninguém, de retrocesso, como já mencionamos aqui. Uma pauta de costumes que não coloca comida na mesa do povo brasileiro e que não pode ser trazida à baila num país tão diferente e diverso. Não posso ter a tese de que o Brasil, tão diferente na sua identidade, tenha de ter só uma religião, um princípio, um determinado valor. Nós temos que aceitar as diferenças.
E quais os desafios da economia?
Continuar avançando, fazendo medidas mais firmes para combater a inflação, que significa a queda de juros. Esse é o grande desafio do futuro. O próximo presidente da República precisará baixar os juros o mais rapidamente possível, dentro da autonomia do Banco Central, para que a gente possa ter não somente uma comida mais barata alimentando o povo brasileiro, mas também o poder aquisitivo das pessoas naquilo que é considerado básico. Acho que a parte da economia é isso. O restante é continuar avançando com as políticas públicas que já existem, não precisa inventar a roda. A gente pode unificar algumas, para engordar esse caldo de programas sociais unificados. Temos algumas pautas relevantes que fogem à pauta econômica, como a segurança pública, que deixou de ser um problema estadual, e a mobilidade urbana, a questão da integração do transporte coletivo.
Por Magno Martins - De Brasília
Folha de Pernambuco