
O senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) voltou a negar, em nova nota, que tenha questionado a integridade do sistema de votações no Brasil durante evento com diplomatas estrangeiros em Brasília. Nesta terça, em discurso, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — que se tornou inelegível por uma reunião com embaixadores na qual teceu ataques ao sistema eleitoral do país — citou informações falsas sobre a origem das urnas eletrônicas.
No novo comunicado, porém, Flávio silencia de onde tirou a informação, desmentida desde 2017, que vincula uma empresa venezuelana às urnas no Brasil. O senador havia dito que as máquinas usadas em eleições no Brasil tem origem na Smartmatic, dado rebatido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A nota é assinada por Flávio; pelo senador Rogério Marinho, coordenador-geral da pré-campanha; e por Maria Claudia Bucchianeri, coordenadora jurídica da empreitada eleitoral bolsonarista. O texto afirma que, em sua fala aos diplomatas, o pré-candidato "se limitou a relatar dois fatos públicos e amplamente divulgados pela imprensa".
"1) O FATO ORIGINARIAMENTE GERADOR DA INELEGIBILIDADE DE SEU PAI, JAIR BOLSONARO (uma notória reunião com embaixadores); 2) UM RELATÓRIO RECENTEMENTE DIVULGADO PELA CIA, A RESPEITO DE FRAUDES NAS ELEIÇÕES VENEZUELANAS", lista a nota, toda em letras em caixa alta.
O texto afirma que a fala de Flávio foi "brevíssima" neste ponto e destacou que o senador disse não estar "questionando o sistema de votação brasileiro". Ele reafirmou ter exortado os representantes internacionais a enviarem missões de observação internacional.
"AFASTADA QUALQUER DESCONTEXTUALIZAÇÃO DAS FALAS DO PRÉCANDIDATO, SUA EQUIPE DE PRÉ-CAMPANHA REAFIRMA SUA INTEGRAL CONFIANÇA NO SISTEMA ELEITORAL BRASILEIRO E SUA CRENÇA IRRESTRITA DE QUE AS MISSÕES DE OBSERVAÇÃO INTERNACIONAL DEVEM SER FORTEMENTE ESTIMULADAS, POIS CONTRIBUEM PARA O “APERFEIÇOAMETO DO PROCESSO ELEITORAL, AMPLIANDO A TRANSPARÊNCIA, A INTEGRIDADE E A CONFIANÇA PÚBLICA NAS ELEIÇÕES", acrescenta o texto.
Pelas redes sociais, Flávio compartilhou um vídeo da reunião com diplomatas, mas referente a outro trecho: do momento em que cita a condenação do pai pelos atos golpistas e uma suposta "perseguição" ao irmão Eduardo Bolsonaro (PL), recentemente beneficiado por um green card por decisão do governo americano. Não explicou a menção ao dado falso sobre as urnas.
Num primeiro texto divulgado à imprensa, nesta terça, Flávio afirmou que o envio de observadores internacionais para o acompanhamento de eleições é "uma prática adotada em diversas democracias e reforça a transparência no sistema eleitoral". Leia abaixo a nota na íntegra:
"O senador e pré-candidato à Presidência da Repúplica, Flávio Bolsonaro, não coloca em dúvida o processo eleitoral brasileiro. O convite para a presença de observadores internacionais segue uma prática adotada em diversas democracias e reforça a transparência no sistema eleitoral"
O pré-candidato discursou nesta terça-feira no encontro "Debatendo o Brasil", organizado pelo site The Brazilian Report e a agência Novo Selo Comunicação. Estavam presentes membros do corpo diplomático de 42 países, como Estados Unidos, Israel, Reino Unido, África do Sul, Austrália, Paraguai, União Europeia e Alemanha, entre outros".
O que disse Flávio Bolsonaro
Na fala, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) mencionou dados inverídicos sobre uma empresa venezuelana que aparece em documentos da CIA divulgados pela gestão Trump na semana passada.
— O pedido que eu faço a todos aqui, não estou questionando o sistema de votação brasileiro, mas que todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possíveis para nossas eleições, como sempre fazem, e também pessoas que tenham conhecimento sobre essa tecnologia e como o Brasil pode dar eleições mais seguras e transparentes — disse Flávio Bolsonaro.
Antes, o parlamentar havia feito referência a documentos da CIA tornados públicos na semana passada, que levantam suspeitas sobre o processo eleitoral venezuelano. A papelada faz parte de um pacote de conteúdos divulgados pela Casa Branca após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aliado da família Bolsonaro, realizar um pronunciamento levantando suspeitas de interferência estrangeira nas eleições americanas de 2020.
O documento em questão, apesar de apontar que oficiais da Venezuela desenvolveram interesse e "alguma capacidade" em manipular sistemas eletrônicos de votação, não obteve confirmação definitiva de que fraudes eletrônicas de grande escala foram executadas com sucesso no país. Ao discursar, Flávio citou especificamente a empresa venezuelana Smartmatic, repetindo uma informação falsa já desmentida no passado pelo TSE:
— E uma das suspeitas é que uma empresa chamada Smartmatic, de origem venezuelana, é que tenha uma programação para alteração das votações naquele país — afirmou Flávio, acrescentando o dado equivocado: — Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana.
Informação falsa
A Smartmatic não fornece urnas eletrônicas para as eleições brasileiras. Em 2017, quando a informação falsa começou a viralizar nas redes, o TSE publicou uma nota a desmentindo.
"As urnas eletrônicas brasileiras foram projetadas por técnicos a serviço da Justiça Eleitoral e são produzidas, sob a sua direta coordenação, por empresas selecionadas por meio de processos licitatórios públicos e de ampla concorrência", diz a nota.
Novos desmentidos foram publicados pelo tribunal nos ciclos eleitorais seguintes, como em 2020 e 2022. Questionado nesta terça-feira, o TSE reafirmou que não há relação entre as urnas e a empresa venezuelana.
A Smartmatic já celebrou contratos com a Justiça Eleitoral brasileira. No entanto, eles versavam sobre a prestação de serviços de conexão de dados e voz e não envolviam a programação ou operação das urnas eletrônicas. A empresa venezuelana até chegou a participar de uma licitação para fabricar urnas para as eleições de 2020, mas perdeu a disputa para uma concorrente.
O próprio Flávio lembrou à plateia da condenação do pai pelo TSE, que, durante encontro com embaixadores no Palácio do Planalto em 2022, também teceu acusações infundadas sobre o sistema eleitoral brasileiro:
— Alguém que tinha uma preocupação com a transparência, a segurança do nosso sistema eleitoral e apenas manifestava as suas preocupações para que os embaixadores levassem esse cenário de preocupação para os seus países — argumentou, minimizando o episódio.
O TSE, no entanto, entendeu que o pai de Flávio praticou abuso de poder político e usou indevidamente meios de comunicação ao atacar, sem provas, as urnas eletrônicas na reunião às vésperas da campanha à reeleição na qual acabou derrotado. Segundo a acusação, ao transmitir o discurso com ataques às urnas eletrônicas na TV Brasil e em redes sociais, Bolsonaro teve “expressivo alcance na difusão de informações falsas já reiteradamente desmentidas”.
Por O Globo