
Terça-feira, 4 de agosto de 2026. O ponteiro do relógio marca 10h03. Quando nossa equipe de reportagem chega à Penitenciária Feminina Júlia Maranhão, em João Pessoa, na Paraíba, as máquinas de costura do Projeto Castelo de Bonecas já estão funcionando, mas ainda não é possível ouvir o som. Entramos e, como uma bússola, os protocolos de segurança indicam a direção de um caminho que nos revelará histórias cheias de esperança e busca por oportunidades.
Cenas de vidas protagonizadas por mulheres, e que serão resumidas na série de reportagens ‘Castelo de Bonecas: o poder transformador de uma Pena Justa’, com capítulos roteirizados pelas lentes do jornalismo.
Trajeto da reintegração
O caminho até as 16 mulheres que integram o projeto Castelo de Bonecas na Penitenciária Júlia Maranhão não é longo. Ultrapassados os grandes e pesados portões de ferro, rompemos os muros e as grades do enorme prédio. Do outro lado, a cena é bem diferente. Encontramos um grande pátio aberto. Percorremos uma passarela cercada por plantas bem verdes e iluminada por raios solares intensos.
A trilha é como um campo fértil em busca de boas sementes para florescer as cores da reparação, seguida pela liberdade. A visão é bonita e a luz natural age refletindo a expectativa de um encontro com a reintegração social. Agora já dá para ouvir o trac-trac das máquinas em movimento, como o vento que não se vê, mas se pode sentir.
Donas de um presente privado de liberdade, elas nos recebem com certa timidez e olhares desconfiados. Sabem que seu passado, na grande maioria das vezes, é ponto crucial para um julgamento com alto teor de preconceitos.
Uma breve explicação sobre a ação motivadora da nossa presença, e logo as artesãs percebem que dessa vez serão enxergadas como realmente são: trabalhadoras em busca de um destino digno, formatado pelas letras do recomeço da reinserção social.
A primeira a se disponibilizar para a conversa é Selena Gomes. Ela tem 38 anos e há dois está incluída no Castelo de Bonecas. O olhar da artesã é vivo, apesar dos óculos que por vezes tentam esconder seu brilho. A voz é firme, revela segurança e aponta a certeza de alguém voltando o pensamento para um futuro onde a liberdade vá além de um cadeado aberto e um portão destrancado.
“Eu percebo que muitas das minhas colegas chegam aqui sem terem sido socializadas, elas passaram uma vida toda sendo marginalizadas”, responde com profundidade.
Para a artesã, a palavra ressocialização não representa apenas futuro ou recomeço, mas a primeira chance, para muitas, de se enxergar de forma real. “O papel da ressocialização não é só de tornar a pessoa apta a reconhecer o seu erro e a querer uma mudança de vida, mas muitas vezes tem sido o de fazer com que a pessoa entenda que ela é merecedora de uma vida melhor, é digna e que pode estar sim em sociedade, cumprindo seu papel como cidadã”, expõe Selena.
Política de ressocialização, um portal transformador
Dar a cada uma das participantes do Castelo de Bonecas o merecimento de um recomeço preenchido pelo verbo ‘acreditar’. Palavra conectada a um nome que se torna sinônimo de reintegração social: João Rosas. O gerente de Ressocialização do Sistema Penitenciário da Paraíba nutre especialmente a crença de que projetos como esse tiram as pessoas privadas de liberdade da invisibilidade.
Bonecas feitas à mão com vistas à mudança de vidas privadas de liberdade
“Um dos grandes objetivos da política de ressocialização é justamente romper com a invisibilidade social dessas pessoas e reconhecer que, por trás de cada indivíduo privado de liberdade, existe uma história, uma trajetória e, principalmente, uma possibilidade de reconstrução”, afirma João Rosas.
Expectativa ampliada para Selena Gomes. “O que eu gostaria que a sociedade entendesse é que, sim, nós, eu e as outras mulheres que estamos aqui, cometemos erros e nós precisamos assumir a responsabilidade dos erros que cometemos. Mas esses erros não definem quem nós somos, não vai definir a nossa vida inteira”.
A política de ressocialização da Paraíba é ampla. O Estado possui 62 unidades prisionais, sendo 60 unidades produtivas, levando atividades para aproximadamente 1.800 pessoas privadas de liberdade diariamente, em regime fechado. Isso inclui oportunidades de participação em diferentes ações de educação, trabalho, capacitação profissional, cultura, esporte, lazer e empreendedorismo.
“Não se trata apenas de oferecer uma ocupação, mas de criar oportunidades reais de transformação por meio da educação, da profissionalização, das oficinas produtivas, do empreendedorismo, da geração de renda, da atenção integral à saúde física e mental e da reconstrução dos vínculos familiares e sociais”, completa o gerente de Ressocialização.
O Projeto Castelo de Bonecas é uma das iniciativas mais consolidadas da política de reintegração social da Secretaria de Estado da Administração Penitenciária, considera João Rosas. “Seu principal objetivo é promover a inclusão produtiva de mulheres privadas de liberdade por meio da qualificação profissional, do empreendedorismo e da geração de oportunidades concretas de trabalho e renda”.
Atualmente, o projeto é desenvolvido na Penitenciária Feminina Júlia Maranhão, em João Pessoa, e também na Penitenciária Feminina de Campina Grande, unidade para a qual foi expandido em 2021, ampliando o alcance dessa política pública.
Embora compartilhem os mesmos objetivos, cada oficina possui uma vocação produtiva específica. Na unidade de João Pessoa, a produção é voltada predominantemente para bonecas artesanais, que se tornaram a principal identidade do projeto. Já na unidade de Campina Grande, além das bonecas, a produção concentra-se em artigos para o lar, como sousplats, e, mais recentemente, nos amigurumis, ampliando as possibilidades de comercialização e geração de renda.
“O funcionamento do projeto está baseado em um processo contínuo de formação técnica e profissional. As participantes recebem capacitação que envolve conteúdos teóricos sobre empreendedorismo e atividades práticas, especialmente na área de corte e costura, desenvolvendo competências técnicas, disciplina, criatividade e autonomia para o exercício de uma atividade produtiva”, pontua João Rosas.
É nesse processo de reconstrução de caminhos e de novas oportunidades que o conhecimento e a autonomia ganham força.
O grande resultado buscado pelo caminho da ressocialização é a produção de impactos duradouros. “Que essas pessoas não retornem ao sistema prisional, que possam reconstruir seus vínculos, contribuir com a sociedade e construir uma nova história baseada em trabalho, educação, autonomia e cidadania".
Metamorfose que tem o incentivo do Poder Judiciário por meio do Plano Pena Justa, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que ganha o reforço do Tribunal de Justiça da Paraíba. Com projetos conjuntos, esses Poderes têm provocado uma alteração profunda na essência de Selena Gomes e promovido, segundo sua própria perspectiva, uma pena justa.
No próximo capítulo da série ‘Castelo de Bonecas: o poder transformador de uma Pena Justa’, vamos conhecer a história de Lílian Alves Romão e as novidades inseridas na política de ressocialização da Paraíba que somam esforços para as integrantes do projeto se tornarem donas do próprio negócio conhecendo a fundo a dinâmica de empreender.
Por Nice Almeida
Fotos: Ednaldo Araújo