
A distância entre uma ideia e uma mobilização popular nunca foi tão curta. As redes sociais digitais romperam a tradicional barreira espaço-tempo e estabeleceram uma nova dinâmica para as relações humanas, políticas e sociais. Hoje, uma mensagem publicada em qualquer lugar do planeta pode, em poucos segundos, despertar sentimentos, construir identidades e mobilizar multidões. Mais do que instrumentos de comunicação, as redes se transformaram em territórios de organização coletiva.
As eleições presidenciais brasileiras de 2026 ofereceram uma demonstração extraordinária desse fenômeno. Derrotado no primeiro turno por Flávio Bolsonaro, Lula iniciou a segunda etapa da disputa com uma vantagem superior a dois milhões de votos. Em apenas três semanas, uma intensa mobilização politica e social ajudou a produzir uma virada histórica, consolidada em 51,79% dos votos válidos.
A reação aconteceu simultaneamente nas ruas e nas redes. Parlamentares, governadores, lideranças políticas e movimentos sociais organizaram atos públicos em diferentes regiões do país. Entretanto, foi no ambiente digital que a campanha encontrou uma possibilidade de mobilização capaz de superar limitações geográficas e acelerar extraordinariamente a circulação das mensagens.
Há alguns anos, defendo que o conteúdo é o elo entre o público e as marcas ou personalidades. Mas esse elo somente se fortalece quando a comunicação ultrapassa a simples transmissão de informações e desperta nas pessoas o sentimento de pertencimento. A eleição brasileira demonstrou que o cidadão não quer apenas receber uma mensagem. Ele deseja participar da sua construção, circulação e repercussão.
A campanha petista compreendeu essa dinâmica ao ampliar espaços de participação digital. Grupos de mensagens, vídeos curtos, conteúdos compartilháveis e convocações coordenadas transformaram apoiadores em agentes ativos de comunicação. O chamado Exército de Lula”, impulsionado pelo deputado André Janones, ultrapassou dez milhões de participantes e seguidores, segundo a cobertura jornalística nacional e internacional.
Um dos elementos mais expressivos dessa estratégia foi o senso de urgência. A comunicação passou a convocar ações programadas por meio de mensagens imediatistas, transformando cada publicação em uma oportunidade de participação. As mensagens deixavam de ser apenas algo a consumir e passava a representar uma tarefa coletiva: compartilhar, responder, produzir, mobilzar.
A urgência, associada ao pertencimento e à percepção de responsabilidade individual sobre o resultado coletivo, criou condições para uma mobilização de milhões de pessoas em pouquíssimo tempo. Evidentemente, não se pode atribuir a vitória exclusivamente às redes sociais. Entretanto, seria igualmente equivocado ignorar a capacidade dessas plataformas de acelerar a organização social e ampliar o alcance das ações presenciais.
O fenômeno encontra correspondência na teoria da identidade de resistência, desenvolvida pelo sociólogo Manuel Castells. Para ele, grupos que percebem seus valores, interesses ou condições de existência ameaçados podem construir identidades coletivas capazes de enfrentar estruturas dominantes de poder.
No Brasil, a defesa da democracia e a oposição ao avanço da extrema direita funcionaram como elementos de identificação para diferentes grupos sociais. Mais do que uma campanha eleitoral, formou-se uma rede de resistência política que reuniu pessoas com histórias, interesses e origens distintas em torno de um objetivo compartilhado.
E o fenômeno não terminou nas urnas brasileiras.
A imprensa internacional já registra a repercussão dessa experiência. Reportagens da Folha de São Paulo e da CNN Brasil mostram lideranças e movimentos progressistas na Espanha, no México, na França e na Argentina incorporando símbolos e estratégias de mobilização utilizados no Brasil. O gesto do “L”, os canais digitais de organização e a convocação permanente de apoiadores passaram a inspirar iniciativas políticas além das nossas fronteiras.
O The Guardian também destacou a combinação entre ruas e redes como elemento importante da virada eleitoral, enquanto a revista The New Yorker situou o resultado brasileiro em um movimento mais amplo de reação internacional ao avanço de forças autoritárias.
Sob a perspectiva de Castells, essa circulação internacional de símbolos e estratégias revela algo ainda mais profundo: identidades de resistência podem ultrapassar fronteiras nacionais e estabelecer conexões entre sociedades que compartilham preocupações semelhantes.
A experiência brasileira, portanto, oferece uma reflexão que transcende partidos e eleições. Quando a comunicação produz pertencimento, a distância deixa de ser obstáculo, o tempo deixa de ser uma limitação e a participação individual adquire dimensão coletiva.
O grande desafio está em transformar essa capacidade de mobilização em veículos duradouros, educação digital, consciência crítica e compromisso democrático. Afinal, a mesma velocidade que aproxima pessoas também pode disseminar desinformação e aprofundar divisões.
A maior lição de 2026 talvez seja esta: as redes digitais não substituem as ruas, mas podem fazer com que milhões de pessoas, mesmo separadas por oceanos, reconheçam que participam de uma mesma construção histórica.
E, quando essa consciência se estabelece, a resistência deixa de ser apenas uma reação. Torna-se possibilidade de construir, coletivamente, uma sociedade mundial mais democrática, solidária e humana.