
Preocupação com o bolso: economistas veem exagero na reação do mercado após vitória de Lula
Queda na Bolsa criou clima de instabilidade econômica sobre os próximos quatro anos, mas movimento já era esperado
Passada a euforia dos apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com a reeleição do presidente e a frustração dos que apostavam na vitória de Flávio Bolsonaro (PL), a economia passou a dominar as preocupações dos brasileiros. As dúvidas vão do impacto da eleição no bolso dos consumidores à expectativa de quando os preços nos supermercados vão cair e aos rumos do país nos próximos anos.
O nervosismo do mercado financeiro contribuiu para ampliar a apreensão. No dia seguinte à eleição, o país acompanhou a interrupção temporária das negociações na Bolsa de Valores, após uma forte queda do Ibovespa.
A suspensão ocorreu porque, pelas regras da B3, uma queda de 10% do principal índice da Bolsa aciona o chamado circuit breaker, mecanismo que interrompe as negociações por 30 minutos para conter movimentos bruscos do mercado.
Segundo a economista e professora da FGV (Fundação Getulio Vargas) Carla Beni, o movimento já era esperado e o mercado financeiro “pagou o preço” de apostar na vitória de Flávio Bolsonaro e ter que lidar com as expectativas.
“O mercado financeiro faz ajustes conforme as expectativas e as suas próprias precificações. Ele tinha precificado a vitória de Flávio de acordo com as suas próprias expectativas. As empresas também colocaram dinheiro na campanha de Flávio. É tudo muito decorrente das pesquisas eleitorais que colocavam Flávio em primeiro lugar”, explica a professora.
De acordo com Carla, apesar de o Brasil não ter crise fiscal, o país terá como desafio para os próximos quatro anos fazer um planejamento de ajuste das contas públicas.
No entanto, ela acredita que o governo está no caminho certo, investindo no aumento real de renda e programas sociais para reduzir as desigualdades.
“Temos uma inflação nesses quatro anos que está controlada. O PIB [Produto Interno Bruto] tem crescido todos esses anos, a desocupação está muito baixa, mas a gente tem uma taxa real de juros muito elevada”, destaca a economista.
Em relação aos bruscos movimentos do mercado financeiro, Carla tranquiliza: “Vai se ajustar e não tem motivo para pânico. Qualquer pessoa com mais idade que já viveu essas oscilações de períodos eleitorais sabe que tudo vai voltar e o mercado financeiro ganha na alta e ganha na baixa”, afirma.
Investimentos
A economista Catharina Sacerdote explica que as oscilações são esperadas e que o período eleitoral é sempre de muita volatilidade.
“A Bolsa em si, os contratos futuros de dólar e taxa de DI [referência de juros do mercado financeiro brasileiro, usada para calcular a rentabilidade de investimentos de renda fixa] respondem às perspectivas econômicas, mas também ao entusiasmo, ao medo e à frustração dos investidores. Em uma eleição tão polarizada, essas convicções políticas podem influenciar a leitura do resultado e levar tanto ao otimismo excessivo quanto ao pessimismo excessivo.”
Ela ainda destaca a existência de movimentos especulativos na Bolsa, com sinais de exagero na reação inicial.
Em um primeiro momento, é preciso aguardar que se confirme a composição da equipe econômica do próximo governo. No discurso de domingo (25), o candidato reeleito prometeu mudanças, sem sinalizar exatamente como e onde acontecerão.
Se houver aumento persistente de despesas sem explicações sustentáveis, cresce a percepção de risco,e os juros aumentam por causa do risco. Se os investidores optam por retirar os recursos investidos e buscam proteção em dólar, ele também aumenta.
O especialista em gestão de investimentos e professor de economia do Ibmec Brasília Willian Baghdassarian diz que o problema do Brasil é gastar acima do que a economia é capaz de oferecer. E a solução seria o governo sinalizar que vai ser um mais parcimonioso na despesa pública.
“Se ele, por exemplo, mostrar que vai ter queda dos incentivos fiscais, por exemplo, demonstrar uma gestão mais eficiente da política econômica, você pode ter um aumento da confiança e, com isso, você pode ter um efeito positivo para os investidores”, avalia.
Equipe econômica
Segundo o economista Roberto Piscitelli, é provável que Lula escolha para a sua equipe econômica representantes que se identifiquem mais com o mercado financeiro, para evitar desgastes.
Na avaliação dele, a resposta do mercado nos primeiros dias foi também uma espécie de aviso ou ameaça ao governo.
“Esse tipo de ‘negociação’ seria uma espécie de aceno de trégua para amenizar as instabilidades e evitar reações despropositadas, como se viu, que corresponde a uma forma muito mais passional dos investidores e especuladores nas suas relações com as bolsas, ao câmbio, aos juros e aos mercados futuros”.